A natureza no centro do debate para o combate às mudanças do clima. Na Climate Week de Nova York, em setembro de 2024, o iCS e parceiros lançaram o Nature Investment Lab (NIL), plataforma colaborativa desenvolvida para estimular um novo modelo econômico, fiscal e regulatório que ajude a destravar o financiamento e escalar as Soluções Baseadas na Natureza (SbN). A iniciativa, que pretende apresentar resultados na COP30, visa construir um ambiente inovador que gere desenvolvimento local nas diferentes regiões florestais do País, guiado por novos parâmetros: uma transição mais equitativa, de baixo carbono, resiliente e positiva para a natureza.
“Somente assim, valorizando e investindo na natureza e na sua restauração, além da capacitação de capital humano para um novo modelo de desenvolvimento, será possível enfrentar os imensos impactos da emergência climática e gerar mais emprego, renda e uma vida melhor para as pessoas”, lembra Maria Netto, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade, com um alerta:
“Sem o cuidado com a natureza, não conseguiremos atingir a meta do Acordo de Paris, de limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais”. A natureza presta serviços ecossistêmicos valiosos, como sequestro de carbono, regulação do clima, purificação do ar e da água.
A criação do NIL parte dessa premissa e é resultado da atuação do iCS como convener (articulador de stakeholders com objetivos comuns) , com diferentes parceiros e atores da sociedade, para assegurar que políticas públicas e a criação de um modelo de desenvolvimento sustentável e inclusivo do Brasil sejam integradas a novas agendas e tendências relevantes.

O início desse processo começou em novembro de 2023, quando foi promovido, pelo iCS com a colaboração do Ministério da Fazenda, o encontro Destravando o potencial das Soluções Baseadas na Natureza, que reuniu em torno do mesmo debate autoridades públicas, lideranças do setor financeiro e empreendedores. Essa foi a primeira de uma série de iniciativas em finanças climáticas que o instituto desenvolveu ao longo da presidência do Brasil no G20.
Com primor técnico e científico, as iniciativas geraram publicações, evidenciando os desafios e oportunidades de promover o financiamento climático no Brasil, além de tecer uma rede com capacidade mobilizadora de promover as mudanças necessárias, de forma ágil e escalável, diante da emergência climática. O NIL foi criado a partir da necessidade de colocar em prática as soluções aprendidas.
Plataforma colaborativa, o NIL reúne formuladores de políticas, reguladores, empresas, instituições filantrópicas, desenvolvedores de projetos, instituições
financeiras e organizações internacionais com o objetivo de desenvolver instrumentos inovadores que permitam um ambiente com maior segurança para o aumento de investimento do setor privado em SbN. Soluções inovadoras que garantam a restauração e preservação da natureza e gerem desenvolvimento sustentável.

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À frente da governança do NIL estão, além do iCS, o Banco do Brasil (BB), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ) e o Instituto Itaúsa. O secretariado será conduzido pela Climate Ventures, com o apoio da Impacta Finanças Sustentáveis. As iniciativas do NIL também contam com a USAID, como um parceiro estratégico.
Para Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa, o NIL busca criar um ambiente propício para que todas as iniciativas em SbN sejam frutíferas e que as instituições envolvidas no projeto estejam “remando para o mesmo lado, sempre em cooperação e com alinhamento”. “É essencial garantir que o Lab atue como uma tenda ampla, acolhedora das iniciativas, comprometida com sua execução, impacto e escala, sem excluir ninguém. Só assim os projetos de SbN serão benéficos para o clima, a natureza e as pessoas”, destaca.
Desatando os nós do setor de SbN
Em um país rico em recursos naturais como o Brasil, não faltam oportunidades para esse tipo de iniciativas que buscam proteger, conservar, restaurar, utilizar ou manejar de forma sustentável os ecossistemas e a biodiversidade, promovendo, dessa forma, serviços ecossistêmicos e resiliência climática. Ao mesmo tempo, essas iniciativas tratam de resolver desafios sociais, econômicos e ambientais de forma efetiva e adaptativa, alavancando o bem-estar das pessoas.
Na prática, são projetos de reflorestamento e restauração ecológica, produtos e serviços da sociobiodiversidade, bioeconomia, agricultura regenerativa, entre outros. No entanto, ainda há desafios para o desenvolvimento e, principalmente, para o financiamento de projetos de soluções baseadas na natureza.

Atualmente, segundo o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), são investidos cerca de US$ 154 bilhões por ano em SbN no mundo, mas seriam necessários US$ 674 bilhões anuais até 2050 para cumprir as metas do Acordo de Paris e evitar que a temperatura média do planeta aumente além de 1,5 oC. No Brasil, a Capital for Climate, um dos aliados técnicos do NIL, aponta que há um mercado de US$ 60 bilhões de oportunidades em NbS. Já o Fórum Mundial de Bioeconomia, em seu relatório “O Status da Bioeconomia Global”, estima que o valor total da bioeconomia, calculado a partir de divulgações de várias partes do mundo, seja da ordem de US$ 4 trilhões, com potencial de crescimento para US$ 30 trilhões até 2050.
“O Lab quer ajudar a superar os principais desafios na expansão do financiamento das SbN e, como esse é um campo muito amplo, o trabalho se concentrará em projetos de restauração, bioeconomia e agricultura regenerativa. Queremos que os resultados sejam rápidos e já possam ser apresentados na COP 30, em 2025”, explica Lucca Rizzo, especialista em finanças climáticas do iCS.
Segundo Rizzo, a primeira barreira que projetos do tipo encontram é a exigência, por parte dos financiadores, em relação às garantias. “Um projeto de SbN não costuma ser grande e, portanto, não consegue prover garantias robustas como as de um projeto do agronegócio, por exemplo”, diz. “Isso aponta para a necessidade de criar modelos adequados para a apresentação dos projetos a possíveis financiadores, bem como de linhas de financiamento desenhadas para dar mais confiança ao investidor e políticas públicas como salvaguardas”.
Como irá funcionar
Por conta desses desafios a serem vencidos, a atuação do NIL foi dividida em três forças-tarefa (FT) específicas, cujos resultados devem ser integrados para impulsionar o mercado das SbN. A FT Regulamentação e Política Pública tem como foco identificar as barreiras legais e regulatórias que possam impedir o crescimento dos investimentos em SbN e, então, trabalhar em propostas para projetos de lei e em outras maneiras para promover mudanças regulatórias e políticas que consigam superar essas dificuldades.
A FT de Transações Inovadoras visa identificar e criar estruturas financeiras a fim de aumentar os investimentos nos projetos. Ou seja, o grupo trabalhará com projetos com modelos de negócios já avançados, mas que ainda enfrentam desafios de obter mais financiamento para crescer. Dessas discussões devem sair os desenhos de modelos de financiamento e instrumentos financeiros adaptados às necessidades específicas de cada grupo – bancos de desenvolvimento, inclusive os multilaterais, e instituições financeiras – para viabilizar projetos de grande escala.
Por fim, a terceira FT de Custos e Impactos das Transações, atua no desenvolvimento de padrões financeiros e modelos de negócio para SbN, incluindo padrões de contratos, garantias, metodologias e indicadores de impacto relacionados aos projetos.
“Vimos que há projetos específicos em bioeconomia que conseguiram crescer, mas que levaram mais de um ano para concretizar o financiamento. Isso porque o financiador precisa entender bem os riscos de um projeto antes do desembolso. E então é feito um modelo de financiamento customizado para aquele projeto em questão, mas a desvantagem é que o modelo, geralmente, não pode ser replicado. Por isso a necessidade de discutir uma padronização”, explica Rizzo.
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